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esse blog é dedicado a todos os professores que como eu, não perdem a esperança de ver uma educação de qualidade em nosso Brasil!


TESES, DISSERTAÇÕES E MONOGRAFIAS SOBRE A EDUCAÇÃO

PEDAGOGIA E PEDAGOGOS EM DIFERENTES ESPAÇOS:
INTERDISCIPLINARIDADE E COMPETÊNCIA PEDAGÓGICA

Isabel Magda Said Pierre Carneiro
Maria José Camelo Maciel
Introdução
O debate acerca do reconhecimento da importância da Pedagogia em diversos
espaços escolares e extra-escolares ampliou-se, principalmente a partir dos anos 1990.
A intensidade de tal discussão se faz a partir das transformações sociais, políticas e
econômicas ocorrentes no mundo, impulsionada, principalmente pelas novas demandas
postas pelo que é chamado Revolução da Tecnologia da Informação (CASTELLS,
1999). Esse cenário revela que os avanços na comunicação, na informática e as outras
mudanças tecnológicas e científicas influenciam os novos sistemas de organização do
trabalho e das relações profissionais, que requerem cada vez mais que os processos de
Educação se realizem para além dos muros das escolas e, conseqüentemente, implicam
uma redefinição dos espaços de atuação do pedagogo e dos seus saberes. Segundo
Tardif (2003), os saberes incorporam os conhecimentos, competências, habilidades,
valores do pedagogo, referindo-se também ao saber, saber-fazer e saber-ser.
Articular teoria e prática, integrar os saberes científico-tecnológicos bem como
associar os conhecimentos específicos da formação profissional e os saberes tácitos
advindos das práticas sociais e da experiência profissional a sua prática, relacionando-os
e adequando-os aos lugares em que trabalham são alguns dos desafios a serem
enfrentados pelo pedagogo em sua atuação.
Como contribuição a esse debate, apresentamos neste trabalho os resultados de
um estudo realizado sobre a prática do pedagogo em hospitais e escolas de Educação
Profissional, objetivando evidenciar, a partir de ações concretas, como o trabalho
pedagógico se desenvolve nesses espaços e que os saberes mobilizados pelo pedagogo
são plurais, interdisciplinares e provenientes de várias fontes sociais.
Trata-se de uma pesquisa de natureza qualitativa, do tipo estudo de caso.
Segundo Ludke e André (1986, p.18), “o estudo qualitativo se desenvolve numa
situação natural, é rico em dados descritivos, tem um plano aberto e flexível e focaliza a
realidade de forma complexa e contextualizada”.
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Para a realização deste estudo, foram investigados dois espaços, um não-formal,
que segundo Libâneo (2004) é aquele, cujas atividades contêm caráter de
intencionalidade, porém com baixo grau de estruturação e sistematização, implicando
certamente relações pedagógicas, mas não formalizadas. O outro é formal, nãoconvencional,
que se refere às atividades de ensino em que se fazem presentes a
intencionalidade, a sistematicidade e condições previamente preparadas, atributos que
caracterizam um trabalho pedagógico-didático, ainda que realizado fora do marco
escolar propriamente dito.
As instituições foram o hospital Sarah Kubitschek e o Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial – SENAC/Ceará. No primeiro local, os dados foram obtidos
mediante observações diretas, com relatos registrados em diário de campo, e entrevista
semi-estruturada com uma pedagoga, a única da Instituição. A análise sobre a atuação
do pedagogo no segundo espaço se baseou em elementos extraídos a partir de
observação direta da prática da equipe de coordenação pedagógica composta por quinze
pedagogos e pedagogas e de entrevista semi-aberta à Gerência de Recursos Humanos.
2 Contextualização do tema
A Educação é um processo social que ocorre em toda sociedade, por intermédio
de variados meios e em distintos espaços sociais. Segundo Franco (2005), “à medida
que a sociedade se tornou tão complexa, há que se expandir a intencionalidade
educativa para diversos contextos, abrangendo diferentes tipos de formação necessárias
ao exercício pleno da cidadania” (p.177-178). Nessa perspectiva, as referências e
reflexões sobre as diversas formas e meios de ação educativa deverão também constar
do rol de atribuições de um pedagogo, e, mais que isto, referendar seu papel social
transformador.
O comentário de Franco nos leva à reflexão de que na contemporaneidade o
conhecimento assume cada vez mais um papel central e, conseqüentemente, o educativo
se constitui em apelo constante, pois vivenciamos atualmente uma nova configuração da
sociedade capitalista, a qual se convencionou denominar de “sociedade do
conhecimento”.
Observamos, em face desse momento novo da sociabilidade capitalista, o
surgimento de uma preocupação central com a formação das pessoas em diversos
segmentos sociais, como as empresas, por exemplo, que passam a investir fortemente
em treinamento para atender as suas finalidades. Tanto é assim que muitas delas
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possuem escolas, centros de treinamento e reciclagem de seus empregados, ou fazem
convênios com outras empresas destinadas exclusivamente a esse tipo de atividade.
Também, várias outras instâncias e atividades sociais atualmente se organizam em torno
de projetos educativos, como, por exemplo, o turismo, que se nutre de princípios como
o de cidade educativa.
A mídia televisiva, agora de modo bem mais acentuado e direto, lança mão de
canais educativos ou programas educativos voltados, por exemplo, para Educação
ambiental, Educação para a cidadania, qualidade de vida etc., por meio de variadas
estratégias, nas quais se inclui de forma significativa a Educação a distância. Parece
evidente que a sociedade resolveu incorporar um papel educativo, o que traz a
necessidade de se investigar com que critérios e com que finalidades, uma vez que nem
sempre os processos educativos a que são submetidos os sujeitos implicam
humanização e emancipação.
Sabemos que a Educação se faz a partir de relações sociais historicamente
situadas e a Pedagogia, nesta nova investida social, deve assumir o importante papel de
explicitar a intencionalidade pretendida à ação educativa social. Ela também precisa,
mediada por conhecimentos científicos, filosóficos e profissionais, investigar a
realidade educacional em transformação para explicitar objetivos e processos de
intervenção metodológica e organizativa referentes à transmissão e à assimilação de
saberes e valores. Essa “pedagogização” da sociedade evidencia intensamente a
necessidade do pedagogo, como agente crítico e detentor de saberes gerais e específicos
necessários à explicitação e organização dos processos educativos, atuando em espaços
diversos, além da escola formal.
Isto significa que o grande desafio a que se submete o pedagogo atualmente é,
utilizando-se de fundamentos de diversas áreas do conhecimento, elaborar categorias de
análise para a apreensão e compreensão de variadas práticas pedagógicas que se
desenvolvem em diversos contextos conforme as relações sociais de nossa época;
transformar o conhecimento social e historicamente produzido em saber escolar,
selecionar e organizar conteúdos a serem trabalhados mediante estratégias
metodológicas adequadas; estabelecer formas de organização e gestão dos sistemas de
ensino nos vários níveis e modalidades; e, finalmente, no fazer deste processo de
produção de conhecimento sempre coletivo, participar como um dos agentes da
organização de projetos educativos, escolares e não escolares, que expressem os anseios
da sociedade e dos sujeitos sociais.
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3 A atuação do pedagogo em diferentes espaços
3.1 O trabalho pedagógico no hospital Sarah Kubitischek
O hospital Sarah Kubitschek é uma instituição dedicada à reabilitação e ao
tratamento de deformidades, traumas, doenças do aparelho locomotor e problemas do
neurodesenvolvimento. O objetivo dos programas é proporcionar ao paciente a
possibilidade de desenvolver, ao máximo, suas capacidades, seu potencial de
funcionalidade, para que possa ter condições de retomar seus papéis sociais e atividades,
nas áreas afetiva, social, educacional e profissional.
Para concretização da proposta, o Hospital conta com equipes interdisciplinares,
incluindo o pedagogo. Este profissional desenvolve um trabalho voltado para o reforço
escolar, reeducação escrita, orientação e estímulo, buscando ajudar na reabilitação do
paciente e orientar a família sobre como proceder nesse processo. Ele também realiza
visitas escolares no intuito de, juntamente com os professores das escolas, discutir as
possibilidades de inserção do paciente na instituição educacional. Nessa perspectiva, a
intervenção pedagógica busca contribuir para o desenvolvimento físico, psicológico,
social, profissional, educacional do paciente, compatível com seu comprometimento
fisiológico e limitações ambientais.
É interessante destacar que sua atuação corresponde aos diversos programas da
Instituição: Pediatria, Reabilitação Infantil, Lesado Cerebral e Lesado Medular, sempre
em consonância com a equipe, composta por fisioterapeutas, psicólogos, nutricionistas,
professores de Educação Física, fonoaudiólogos, assistentes sociais, médicos clínicos e
neurologistas, além dos profissionais da enfermagem e, evidentemente, o paciente e sua
família.
A concepção de trabalho interdisciplinar do Sarah Kubitschek parte do princípio
de que um atendimento hospitalar envolve o tratamento físico e outros aspectos ligados
ao ser humano, como a parte psicológica, a social e a familiar, sendo esta última uma
participante integral de tudo o que se relaciona com o indivíduo, a sua doença, suas
internações e seu restabelecimento. Sobre isso, a pedagoga comenta:
O Sarah tem uma proposta de trabalho interdisciplinar e o professor
também faz parte dessa equipe, pois considera que o paciente não tem
só braço e perna. A gente entende que o ser humano tem outras
necessidades como aprender, buscando abordar o paciente de forma
global. Nesse sentido, o professor trabalha com a aprendizagem, com
a cognição, com o pensamento, com a capacidade que o paciente tem
de raciocinar. Toda a equipe tenta entender o trabalho do outro, mas
claro que cada um tem sua parte específica.
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Essa fala nos permite perceber que a inter-relação da pedagoga com os
diferentes profissionais é bastante significativa, pois permite uma troca de informações,
tanto referentes à doença quanto ao paciente, favorecendo a inclusão do indivíduo na
sociedade. Nesse sentido, as funções que exerce são específicas do pedagogo, embora
algumas atividades sejam ponto de intercessão com outras áreas de conhecimento, como
a Psicologia.
Como exemplo desse trabalho interdisciplinar, verificamos que, no grupo de
afasia, a pedagoga tem o papel de socializar os conhecimentos com a acompanhante,
orientando a respeito da doença, das repercussões da lesão e de como pode ajudar o
paciente na sua reabilitação. Assim, orienta e estimula a acompanhante para que saiba
lidar melhor com o paciente, percebendo que cada lesão tem as suas peculiaridades e
que cada indivíduo tem uma história social diferente. Além disso, desenvolve atividades
de estimulação com o paciente, sempre mostrando para a família a forma de fazer em
casa, pois a idéia é que “a família esteja transferindo para o dia-dia as atividades”. A
reflexão que a pedagoga faz sobre seu trabalho e a possibilidade de outro profissional
realizá-lo é a seguinte:
O psicólogo também pode realizar, mas na realidade, no momento de criar
estratégias, metodologias, a forma de expor, exemplificar uma linguagem do
acompanhante e repassar as informações - tudo isso é próprio do pedagogo. É
uma competência ligada a formação, de criar estratégias, de criar um fim para
gerar a aprendizagem. O pedagogo dispõe de mais material, mais recurso,
isso não quer dizer que o psicólogo não possa fazer, mas eu percebo que o
meu conhecimento pedagógico faz o diferencial.
Mediante esse discurso, percebemos a importância que as dimensões da
Pedagogia ou da gestão pedagógica propriamente dita tem na instituição hospitalar.
Segundo Fabre (2004), são os saberes pedagógicos, isto é, os processos de ensinoaprendizagem,
as determinações legais da área da Educação e particularmente o
conjunto de saberes necessários à gestão dos processos educacionais, que fundamentam
a ação do pedagogo, possibilitando a esse profissional interagir com os outros sujeitos
no contexto em que atua.
Quanto às competências esperadas para o desempenho das funções do
profissional de Pedagogia no hospital, encontra-se a necessidade de estar em
consonância com a filosofia do hospital, que tem como princípio básico a
interdisciplinaridade; saber lidar com a diversidade de profissionais; trabalhar em
equipe e relacionar-se com o paciente, com a família e com o público geral. Além disso,
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o pedagogo deve buscar sempre o bem-estar das pessoas, e estudar questões que
envolvem a Educação e a Saúde.
Em relação às dificuldades verificadas pela pedagoga, percebemos sua
necessidade de estar em sintonia com a linguagem médica e de estar sempre atualizada
sobre os diferentes conhecimentos da instituição hospitalar, os quais não constituem
práticas do âmbito escolar nem fazem parte, geralmente, da organização curricular dos
cursos de formação para o magistério. Conforme registro da entrevistada, pouco se
divulga no contexto universitário sobre a atuação em ambientes hospitalares e que,
durante a graduação, não teve informação sobre essa alternativa de prática pedagógica:
“Ao entrar no Sarah, não sabia da existência dessa área de atuação do pedagogo, isso
demonstra o quanto a universidade ainda apresenta uma visão um tanto quanto restrita
desse profissional”. Especificamente sobre o curso de Pedagogia, ela afirma: “durante
toda minha faculdade, por exemplo, nunca vi nada ligada ao papel do pedagogo em
recursos humanos nem mesmo à atividade que exerço no momento”.
Os depoimentos se tornam preocupantes no que diz respeito ao tipo de formação
inicial que os estudantes de Pedagogia recebem. As mudanças constantes da sociedade
atual demandam cada vez mais profissionais da Educação em diferentes espaços
escolares e não escolares, mas parece que a Universidade não acompanha essas novas
exigências.
É preciso considerar, no entanto, a existência, no Curso de Pedagogia, de um
conjunto de conhecimentos advindos de campos científicos diferentes como Sociologia,
Psicologia, Filosofia, Antropologia, História, entre outros, que visam a proporcionar
uma leitura crítica, reflexiva e transformadora do mundo, capaz de identificar e
interpretar as múltiplas facetas que se apresentam no cotidiano hospitalar.
Nessa perspectiva, a formação implica a capacidade de o pedagogo realizar
leituras interdisciplinares dos fenômenos educacionais, fundamentando-se nos múltiplos
saberes e conhecimentos acumulados historicamente pela humanidade e priorizando a
dimensão ética em seu trabalho.
3.2 O trabalho pedagógico em escolas de Educação profissional
O Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial – SENAC é uma instituição de
Educação profissional de natureza para estatal, mantida por impostos recolhidos sobre a
folha de pagamento das empresas do setor produtivo do comércio de bens e serviços.
Possui unidades em todo o Brasil para oferta de cursos profissionalizantes de formação
inicial e continuada de trabalhadores, Educação técnica de nível médio e Educação
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tecnológica de nível superior, nas áreas de Artes, Comércio, Comunicação, Conservação
e Zeladoria, Gestão, Imagem Pessoal, Informática, Lazer e Desenvolvimento Social,
Meio Ambiente, Saúde, Turismo e Hospitalidade.
Para a realização do seu projeto educativo, o SENAC conta com uma equipe de
coordenação pedagógica cuja missão é garantir a materialização do seu projeto políticopedagógico.
Como as escolas de Educação profissional, de uma forma geral, se deparam
com a dificuldade de encontrar docentes que reúnam em seu perfil os saberes técnicos
da área em que atuam e os saberes pedagógicos, decorre daí que grande parte dos
docentes não possui formação pedagógica. Isso se apresenta como uma das principais
responsabilidades da equipe de coordenação pedagógica - ser o elo de ligação entre o
projeto político-pedagógico e o professor - de modo que é esta equipe que orienta a
materialização deste projeto nas ações concretas de sala de aula. Sua ação deve abranger
três etapas estruturadoras da ação docente: planejamento, acompanhamento e avaliação.
Na verdade, nas três etapas, deve ocorrer a formação do docente em serviço, de forma
contínua.
Além dessa tarefa, a equipe também é responsável pelo planejamento e
implementação do Programa de Desenvolvimento de Educadores, seleção dos docentes,
análise e planejamento do material didático, coordenação do trabalho de elaboração das
estruturas curriculares dos cursos que o SENAC oferta ao público, bem como pela
realização de várias atividades de cunho administrativo.
Diante das profundas transformações do mundo do trabalho, o SENAC também,
principalmente nos últimos 10 anos, passa por significativas mudanças que afetam os
planos político-pedagógico e administrativo-organizacional.
Quanto a essas modificações, cabe citar, como mais impactantes para a prática
da equipe de coordenação pedagógica, a adoção de uma orientação curricular com foco
em competências e de um modelo de administração institucional também baseado em
gestão de competências.
Esse processo é reflexo de dois movimentos principais. O primeiro é a reforma
efetivada na legislação educacional brasileira, nos anos 1990, quando se assiste a uma
alteração profunda do sistema educacional no seu conjunto, especialmente, da Educação
profissional, para a qual o conceito de competências se torna referência para a
organização do trabalho escolar. O segundo é o alinhamento das políticas de recursos
humanos às estratégias empresariais, incorporando à prática organizacional o conceito
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de competência como base do modelo para se gerenciarem pessoas, apontado para
novos elementos na gestão do trabalho.
No âmbito do trabalho da coordenação pedagógica do SENAC, as alterações do
modelo pedagógico são expressas por meio de novos ideários, métodos e programas de
ensino que trazem subjacentes modos de pensar os cursos, os conteúdos, o aluno, o
espaço escolar, criando diferentes concepções sobre a Educação, nas quais o
coordenador pedagógico deve orientar o docente a estabelecer a sua prática. Isso passa a
requerer novas competências desse profissional.
Essas novidades, ao mesmo tempo em que reformulam modos de organizar o
tempo, o espaço e o saber escolar, também sugerem modos de pensar/fazer a Educação,
estabelecendo outros padrões de comportamento. Vale ressaltar que a compreensão
desse conjunto de mudanças, tanto para a sua implementação, quanto, e principalmente,
para a sua crítica e possível ressignificação, exige do pedagogo profundo conhecimento
sobre a relação trabalho e Educação, acerca da Educação e suas correspondentes
políticas que regulam as ações, além de traçar limites, prever comportamentos e criar
linguagens coletivas.
As alterações no plano gerencial do SENAC levaram à definição de novas
competências para a equipe de coordenação pedagógica, conformadas ao novo
alinhamento estratégico da Instituição. A definição das competências do coordenador
pedagógico, de acordo com a gerente de recursos humanos,
...deu-se através do processo de busca para realinhamento de
estratégias num momento em que a instituição se depara com um
novo cenário e o próprio contexto atual cobra o domínio de novas
competências que garantam a excelência em educação profissional.
Para a gerente de recursos humanos, a formulação de um novo perfil do
coordenador pedagógico teve como premissas básicas: conscientização de que a
implementação do projeto político-pedagógico do SENAC exige da equipe de suporte
pedagógico um perfil específico; convicção de que o coordenador pedagógico tem
características próprias e deve ser ocupado por profissionais que apresentem um perfil
de competência diferenciado; reconhecimento de que aqueles que ocupam tal função
devem garantir o cumprimento da missão do SENAC como instituição de Educação
profissional, bem como a implementação do projeto político-pedagógico.
As competências foram definidas num processo de discussão coletiva, incluindo
os coordenadores pedagógicos, das quais destacamos as seguintes como mais
significativas:
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• compreender a Educação profissional à luz das transformações políticoeconômicas
contemporâneas, com o fim de atuar com uma visão de totalidade
sobre os fenômenos econômico e político-sociais sobre os quais se assenta tal
modalidade de Educação na atualidade;
• alcançar acordos por meio do diálogo, encontrando e constituindo objetivos
comuns para garantir ambiente de alto desempenho;
• colaborar e cooperar com outras pessoas e unidades para atingir um objetivo
comum, compartilhando informações e conhecimentos relevantes;
• desenvolver os docentes, realizando diagnósticos do seu desempenho pedagógico,
promovendo a sua formação contínua em serviço, atuando em nível estratégico da
organização e sustentando processos que promovam o aprendizado organizacional;
• compreender, incorporar e disseminar os fundamentos e práticas da Educação
profissional, visando a adequar o pensamento e a ação do SENAC ao seu Projeto
Político-Pedagógico; e
• demonstrar capacidade de propor novas estratégias, ações e projetos para a
Educação profissional, articulando-os às novas necessidades e demandas do
mundo da Educação e do trabalho.
Sobre as fontes sociais a partir das quais o coordenador pedagógico no SENAC
constitui suas competências, a gerente de recursos humanos nos ofereceu alguns dados
colhidos por intermédio de instrumento de avaliação aplicada à equipe e aos seus
gestores. Foram apresentadas cinco opções (sendo uma aberta) de fontes, em que o
coordenador pedagógico atribuiria pesos de 1 a 5 à contribuição destas na formulação
de suas competências. O resultado foi o seguinte: 1) Escola Básica e Universidade -
21% dos pedagogos e pedagogas atribuíram o peso máximo; 2) Cursos oferecidos pelo
SENAC/CE e o próprio ambiente de trabalho - 79% concederam peso máximo a essa
fonte para aquisição de suas competências; 3) Movimentos/atividades sociais - foram
considerados as segundas fontes mais relevantes para obtenção de competências por
71% dos entrevistados; 4) Outras fontes, 71% acharam que a busca do
autodesenvolvimento em diversas fontes é bastante significativa para estabelecer suas
competências.
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4 Considerações finais
Um dos fatos que nos chamou a atenção, em primeiro lugar, foi a posição dos
pedagogos, de ambos os espaços, em relação aos saberes provenientes dos cursos de
Pedagogia.
Pelo que pudemos constatar na opinião do coordenador pedagógico que atua na
escola de Educação profissional, as competências mais significativas para a sua atuação
no SENAC não coincidiu com as desenvolvidas nos espaços acadêmicos, na opinião da
maioria. Também na visão da pedagoga que atua no Hospital Sarah Kubitschek, o
currículo do curso de Pedagogia é considerado restrito e não contempla a atuação do
pedagogo em espaços extra-escolares.
É evidente, todavia, o fato de que os saberes pedagógicos necessários à prática
desses profissionais advêm, em boa parte, de sua formação acadêmica, mas, como o
currículo dos cursos não contempla uma visão mais ampla do trabalho pedagógico, os
entrevistados não a consideraram uma fonte tão relevante.
Isso nos leva a pensar que, se a Pedagogia se desenvolve em diversos espaços
educativos escolares e extra-escolares, e se o pedagogo é um profissional cuja
identidade se reconhece no campo da investigação e na variedade de atividades voltadas
para o educacional e o educativo e cuja função está relacionada a todas as atividades de
aprendizagem e de desenvolvimento humano, seja de crianças, jovens, adultos ou
idosos, trabalhadores ou outros, de acordo com o perfil da instituição em que atua,
havemos de reconhecer a necessidade de se formar o profissional da Educação e não
exclusivamente o docente.
Também devemos reconhecer, entretanto, a impossibilidade da formação inicial
do pedagogo abarcar toda a gama de saberes especializados que ele mobiliza nos
diversos espaços escolares e extra-escolares onde atua. Entendemos, contudo, que essa
formação deve avançar para além de um foco exclusivo em determinadas tarefas
pedagógicas para uma concepção mais ampla, que apreenda, de forma crítica, as
transformações ocorrentes no mundo do trabalho, nas instituições educacionais, no País
e no Mundo. Isso implica uma abordagem mais focada nos conhecimentos do campo da
Educação, que deverá ocorrer a partir da indissociável articulação teoria-prática, tendo a
pesquisa como um princípio estruturante dos saberes a serem elaborados.
É importante também notar, que o saber do pedagogo, conforme expressa Tardif
(2003), é um saber plural, pois sua prática integra diversos saberes com os quais
mantém diferentes relações. Senão vejamos o caso da pedagoga que trabalha em
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ambiente hospitalar onde seu saber complementa uma das dimensões que se tem sobre o
desenvolvimento do ser humano numa relação de interdependência com outros saberes
de profissionais diferentes, os quais atuam no objetivo comum da reabilitação do ser
humano que, em virtude de traumas e enfermidades, teve seu desenvolvimento
comprometido. Neste caso, os saberes de sua área de formação, ou seja, os saberes
pedagógicos associados à competência sócio-comunicativa, são condições
indispensáveis à sua atuação neste espaço.
Tais requisitos também são essenciais à equipe de pedagogos que atua no espaço
da Educação profissional, uma vez que as novas postas exigências aos profissionais que
atuam no âmbito da atividade pedagógica vão trazer conflitos diversos na sua prática e
requerer um posicionamento muito firme dos pedagogos, haja vista que o
estabelecimento das diretrizes para o novo modelo formativo ocorre num contexto
marcado por intensa disputa pelos encaminhamentos a serem dados à formação do
trabalhador. Apesar de não pretendermos discutir aqui esses conflitos, vale expressar a
idéia de que as convicções e saberes acerca da Educação e de seu papel na formação
humana, os saberes pedagógicos e a competência comunicativa, tornam-se
imprescindíveis para a negociação dos consensos possíveis neste embate.
Quanto às fontes socais das quais provêm esses saberes profissionais,
evidenciamos que eles têm origens diversas. No caso da equipe pedagógica do SENAC,
nos chama a atenção a acentuada ênfase aos movimentos/atividades sociais, como
participação em Pastorais da Igreja Católica (como a Pastoral da Terra), atuação em
programas como Alfabetização Solidária, em movimento estudantil, movimentos
sindicais; participação como membros de centros acadêmicos, locução de programas de
rádios comunitárias, docência em Educação do Campo, entre outros.
Associamos a valorização dessas fontes pelos pedagogos ao fato de que são
atividades que têm como marca um posicionamento político-social bem demarcado, o
que contribui para uma visão mais crítica e abrangente das questões sociais. Como a
Educação profissional não pode ignorar a tensão entre capital e trabalho, esses saberes
certamente contribuem para ampliar a compreensão acerca de tal fenômeno social.
Tardif (2003) refere-se ao pluralismo do saber profissional, relacionando-o com os
lugares onde os professores atuam/trabalham, com as organizações que os formam, as
fontes de aquisição desse saber e seus modos de integração no trabalho docente.
Transpondo essa observação para o caso do pedagogo, mesmo atuando em atividades
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que não sejam a docência, ela permanece válida e se confirma a partir do estudo da
atuação profissional dos pedagogos examinados neste trabalho.
Finalmente, entendemos que os saberes que o pedagogo mobiliza na sua atuação
para organizar práticas pedagógicas devem ser indissociáveis de uma consciência crítica
sobre a Educação, seu papel na sociedade (os limites e possibilidades do processo
educativo em relação aos determinantes econômico-sociais e políticos presentes em
nossa sociedade), assim como que lhe possibilite a agudeza teórica e prática, no sentido
de que ele possa desenvolver os saberes necessários sobre os seus próprios saberes, ou
seja, sobre o saber de seu trabalho, de sua profissão. Entendemos que o favorecimento
dessa condição deva ser uma atribuição precípua dos cursos de Pedagogia.
Referências bibliográficas
CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede – a era da informação: economia, sociedade
e cultura; v. 1. 3.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.
FABRE, M. Existem saberes pedagógicos? In. HOUSSAYE, J. et alii. Manifesto a
favor dos pedagogos. Trad. Vanise Dresch. Porto Alegre: Artmed, 2004.
FRANCO, M.A.S. Pedagogia como ciência da Educação. Campinas, SP: Papirus,
2005.
LIBÂNEO, José C. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo: Cortez, 2004.
LUDKE, M.; ANDRÉ, M.E.D.A. Pesquisa em educação: abordagens qualitativas. São
Paulo: EPU, 1986.
TARDIF, M. Saberes docentes e formação de profissional. Petrópolis: Vozes, 2003.